A Caatinga em anos chuvosos pode responder por quase metade da remoção de carbono do Brasil
O reconhecimento do bioma costuma parar na condição de único inteiramente contido no território brasileiro. Contudo, os seus 862.818 km² abarcam 3.347 espécies de plantas com flores, 93% da potência eólica instalada no país e cerca de 27 milhões de pessoas. Já a proteção legal alcança 9% do território, tendo sido perdidos 8,6 milhões de hectares de vegetação nativa entre 1985 e 2023.
A delimitação do IBGE (2019) atribui à Caatinga 862.818 km², cerca de 10,1% do território nacional, sendo ela o bioma predominante em 1.095 municípios (IBGE, 2024). No que diz respeito às funções que o bioma desempenha, elas foram medidas por instituições distintas, abarcando desde o ciclo do carbono até a matriz elétrica e o patrimônio arqueológico nacionais, e raramente aparecem reunidas num mesmo panorama.
48%
Das remoções de carbono do Brasil
Em 2022 a Caatinga respondeu por quase metade da remoção bruta de carbono do país, ocupando cerca de 10% do território. A eficiência de uso de carbono da sua vegetação, situada entre 0,31 e 0,58, é a maior já registrada dentre florestas secas áridas e semiáridas, superando a da Amazônia.
Fonte: DA COSTA et al. (2025); MENDES et al. (2025)
72%
Do carbono estocado no solo
A Caatinga densa preservada estoca cerca de 125 Mg C por hectare, permanecendo quase três quartos desse total abaixo da superfície, fração que as metodologias tradicionais de REDD+ não contabilizam. O estoque de carbono orgânico do solo do bioma alcança 2,5 gigatoneladas.
Fonte: DE OLIVEIRA et al. (2021)
3.347
Espécies de plantas com flores
São 962 gêneros e 153 famílias, com 15% de endemismo na flora. Contudo, 80% das áreas do bioma foram mal amostradas e 41% nunca receberam coleta, indicando endemismo real superior ao catalogado.
Fonte: FERNANDES; CARDOSO; DE QUEIROZ (2020); SILVA; LEAL; TABARELLI (2017)
93%
Da potência eólica nacional
O Nordeste concentra 1.026 das 1.132 usinas eólicas do país, abrigando a Caatinga 62% das áreas de usinas solares brasileiras. A irradiação média da região, de 5,49 kWh por m² ao dia, é a maior do território nacional.
Fonte: ETENE/BNB (2025); MAPBIOMAS (2025); PEREIRA et al. (2017)
62%
Da uva de mesa do país
O Vale do São Francisco produz ainda 61% da manga nacional, permitindo o clima de duas a quatro safras por ano, contra uma no Sul. Quanto à pecuária, o Semiárido concentra cerca de 90% do rebanho nacional de caprinos, liderando o Nordeste as exportações brasileiras de mel.
Fonte: CNA; Embrapa; Consórcio Nordeste
1.000
Sítios arqueológicos, no mínimo
O Parque Nacional Serra da Capivara é Patrimônio Mundial da UNESCO desde 1991 e guarda a maior concentração de sítios pré-históricos das Américas. No bioma vivem cerca de 27 milhões de pessoas, dentre as quais 45 povos indígenas e boa parte das comunidades quilombolas do país.
Fonte: UNESCO (2021); IPHAN; CEDEFES; IBGE (2022)
Perdas e vulnerabilidades
A degradação avança antes de se tornar visível no chão
A desertificação em fase inicial é detectável apenas por sensoriamento remoto, tornando-se perceptível em campo somente quando a recuperação já se inviabilizou (MAPBIOMAS, 2021). Dessa forma, os processos descritos a seguir foram medidos por satélite antes de serem percebidos pelas populações que habitam o bioma.
8,6 mi ha
De vegetação nativa perdidos entre 1985 e 2023, correspondendo a 14,4% do bioma, do qual restam 59,6%. Em 2023, 67,4% da supressão ocorreu em vegetação primária, nunca antes desmatada.
Fonte: MAPBIOMAS, Coleção 9 (2025)
+9,9%
De incremento no desmatamento em 2024 sobre 2023. Junto ao Pantanal, a Caatinga foi o único bioma no qual a supressão aumentou, tendo Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica e Pampa registrado queda.
Fonte: INPE/PRODES, Programa BiomasBR (2026)
99,81%
Dos alertas de desmatamento registrados na Caatinga em 2020 apresentavam indícios de ilegalidade.
Fonte: MAPBIOMAS / SAD Caatinga (2020)
170 mil km²
De expansão das áreas suscetíveis à desertificação e do seu entorno entre 2000 e 2020, tendo a área em desertificação severa passado de 74 mil para 107 mil km². Nessas áreas vivem 39 milhões de brasileiros.
Fonte: SUDENE, INSA, OCA e UFCG, Boletim Temático: Desertificação (2025)
40%
Da água de superfície de origem natural do bioma desapareceu ao longo de 35 anos.
Fonte: MAPBIOMAS (2021)
88%
Do domínio da Caatinga já registrou extinções locais de aves florestais endêmicas, estando dez das treze espécies endêmicas avaliadas mais ameaçadas do que sugeria a Lista Vermelha.
Fonte: LIMA; PERES; ARAUJO (2025)
9%
Do bioma sob unidades de conservação, e menos de 2% em proteção integral. Já a Amazônia mantém cerca de metade do território protegido.
Fonte: MAPBIOMAS (2025); ICMBio
US$ 0,50
Por hectare ao ano foi o orçamento médio de 20 unidades de conservação federais da Caatinga entre 2008 e 2014, cerca de treze vezes inferior ao que o próprio MMA declara necessário. Dentre elas, doze não dispunham de conselho gestor e onze não tinham plano de manejo.
Fonte: DE OLIVEIRA; BERNARD (2017)
1995
Ano da proposta de emenda que incluiria a Caatinga dentre os biomas reconhecidos como Patrimônio Nacional, a qual permanece em tramitação. Amazônia, Mata Atlântica, Serra do Mar, Pantanal e Zona Costeira constam do art. 225 da Constituição desde 1988.
Fonte: Constituição Federal de 1988; Câmara dos Deputados
180 GW
Em projetos eólicos e solares planejados sobre o bioma, contra 35,35 GW já instalados. O Ministério Público Federal registra desmatamento, fragmentação territorial, conflitos fundiários e contratos de arrendamento os quais retiram das comunidades o controle efetivo da terra.
Fonte: ANEEL; Ministério Público Federal (2024)
Mantido o ritmo atual de degradação, a modelagem projeta perda de até 90% da biodiversidade do bioma em 60 anos, com 87% das espécies perdendo habitat até 2060. Trata-se de projeção de cenário, dependente do ritmo de degradação e da trajetória de emissões globais, e não de medição já realizada, permanecendo por isso passível de alteração.
Fonte: MOURA et al. (2023), citado por MPF (2024)
A plataforma
Medição como condição para a conservação
A Caatinga chega ao mercado regulado de carbono sem metodologia própria. As abordagens dominantes foram desenhadas para florestas tropicais úmidas, desconsiderando a caducifólia da vegetação, a dependência dos pulsos de chuva e a permanência de quase três quartos do carbono no solo. Diante do exposto, e em curso a regulamentação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões instituído pela Lei nº 15.042/2024, a ausência de número confiável tende a inserir o bioma como fronteira tardia, com crédito barato, pouco verificado e contratos desfavoráveis a quem mantém a floresta em pé.
A plataforma reúne carbono do solo, biomassa aérea, produtividade primária, fluxo, fogo, precipitação, temperatura e uso da terra num mapa único, permitindo o cálculo de estatística por município, território ou área desenhada sobre a série do Google Earth Engine. Quanto à rastreabilidade, cada crédito carrega o registro público da sua origem, em consonância com o modelo de Certificação Participativa de Créditos de Carbono Social.
Carbono do solo, biomassa aérea, GPP, queimadas, precipitação, umidade do solo, fenologia e SIF, com dados de campo e torres de fluxo.
Governança dos mercados
Acompanhamento das decisões e normas que afetam a Caatinga, incluindo o SBCE e as resoluções de REDD+ no país.
Comunicação
Boletins e cartilhas em linguagem acessível para agricultores familiares, assentamentos e demais territórios.
Metodologia e MRV digital
Método de estimativa desenhado para o semiárido, com sistema digital de mensuração, relato e verificação.
Integridade dos projetos
Avaliação da consistência científica e social dos projetos de carbono em operação no bioma.
Formação cidadã
Oficinas, participação em eventos e rodas de diálogo que levam formação à sociedade civil e escutam a visão dos territórios.
Comunicação
Materiais para levar o tema às comunidades
O projeto produz um boletim temático e uma coleção de cartilhas em linguagem acessível, disseminando junto a agricultores familiares, assentamentos e demais territórios o entendimento sobre o mercado de carbono, de modo a mitigar a exposição a acordos desfavoráveis.
Boletim temático
A aproximação do mercado de carbono florestal no bioma Caatinga: desafios, ameaças e perspectivas
Reúne o que a ciência revela, o que a legislação estabelece e o que está em jogo para a Caatinga, em cinco seções que norteiam cidadãos, gestores públicos, organizações e investidores antes de se posicionarem no debate.
Coleção de cartilhas
Volume 1
O que é crédito de carbono?
Volume 2
Como funciona o mercado de carbono?
Volume 3
A Caatinga e o carbono: qual a relação?
Volume 4
Desafios e caminhos para um mercado de carbono que beneficia a todos
A coleção completa, em quatro volumes
Material desenvolvido pelo OCA em cooperação com UFCG, INSA e SUDENE, distribuído nas comunidades do semiárido e disponível para leitura pública.
Formação cidadã
Formação e diálogo com a sociedade civil
A formação sobre o mercado de carbono vem sendo levada às comunidades do semiárido por meio de oficinas, participação em eventos e rodas de diálogo, escutando-se ao mesmo tempo a visão dos territórios quanto à conservação da Caatinga e ao uso da sua terra.
Encontro em assentamento da reforma agráriaApresentação em eventoOficina de formaçãoRoda de diálogoParticipantes de um encontro de formaçãoOficina com a sociedade civil
Conheça a Caatinga, de verdade
A maior floresta tropical sazonalmente seca do planeta
Único bioma exclusivamente brasileiro, a Caatinga abarca alta biodiversidade e riqueza social e cultural, estocando e ciclando o carbono que regula o clima do país e do planeta. Trata-se de uma Floresta Tropical Sazonalmente Seca, a maior do mundo. As fotos a seguir registram o bioma para além do estereótipo de terra seca e vazia.
Foto: Artur LourençoFoto: Artur LourençoFoto: Artur LourençoFoto: Artur LourençoFoto: Artur LourençoFoto: Artur LourençoFoto: Artur LourençoFoto: Artur LourençoFoto: Artur LourençoFoto: Artur LourençoFoto: Artur LourençoFoto: Artur Lourenço
Envie sua foto e ajude a mudar a visão da Caatinga
Uma galeria colaborativa para mostrar o bioma por muitos olhares. Envio disponível em breve.
A cor vem do dado
Quarenta anos de cor da Caatinga, mês a mês
A identidade visual desta plataforma foi medida, e não escolhida numa paleta de design. Desde 1985 a cor da vegetação nativa do bioma vem sendo acompanhada por imagens do satélite Landsat, sendo essa leitura conferida no chão por uma câmera instalada em campo, a qual registra a mesma vegetação ao longo do ano. Dessa forma, cada mês do calendário recebeu a cor que a Caatinga efetivamente tem nele, abril no auge da folha e outubro no fundo da estiagem.
Quarenta anos de Caatinga, um pixel por vez
a cor da vegetação nativa vista do espaço, mês a mês
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a grande seca
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Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez
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Jan
Fev
Mar
Abr
Mai
Jun
Jul
Ago
Set
Out
Nov
Dez
Fonte: série Landsat 5, 7, 8 e 9 sobre a vegetação nativa do bioma, junto às observações da câmera de campo do observatório. O recorte destacado abrange o período de 2012 a 2017, no qual foi registrada a estiagem mais longa dos 173 anos de monitoramento do semiárido (INMET, 2018). Elaboração do OCA.
Cor realComposição Sentinel-2 em cor verdadeira, mês a mês, apresentando o bioma tal como seria visto do espaço.PrecipitaçãoClimatologia mensal de chuva, evidenciando o pulso que dispara a folha e some por cerca de meio ano.ProdutividadeProdutividade primária bruta, na qual se observa a resposta da vegetação à chuva com poucas semanas de atraso.
Climatologias mensais do bioma, com um quadro por mês. As três descrevem o mesmo ciclo em ordens distintas, no qual a chuva antecede a resposta da folha, a produtividade acompanha e o conjunto recua na estiagem.
Acompanhe o carbono do bioma sobre o mapa, por município ou por área desenhada